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Sala de espera. A cirurgia de catarata

Fui acompanhar minha mãe em uma cirurgia de catarata. Dita como simples e rápida, a clínica ficava em um edifício de escritórios tradicional e ficou agendada logo para o início da manhã.


Belo Horizonte é conhecida pelos seus morros e ruas inclinadas, e esse prédio estava localizado exatamente em uma dessas bem íngremes. O horário adiantado ajudou a encontrar uma vaga próximo à entrada, o que foi um alívio porque não tinha área de embarque e desembarque ou estacionamento privado no local.


Subimos e nos deparamos com uma sala de espera já cheia e foi assim que começou nossa jornada.


CADASTRO DO PACIENTE


Com uma prevalência de pacientes idosos os acompanhantes eram em sua maioria companheiros também idosos ou filhos também idosos. Uma cadeira era disponibilizada para o paciente, mas não para o seu acompanhante. Com dúvidas frequentes sobre os dados a serem dados à recepcionista, não vi um paciente dando a declaração sozinho e sim contando com o auxílio de seu par para confirmar as respostas. Entre papéis, assinaturas, digitais e colírios a serem pingados; o acompanhante não tinha outra opção a não ser se manter em pé durante todo o tempo.


Para o atendente também não era uma tarefa fácil. O monitor não estava na altura do olhar e o teclado, em uma altura muito baixa, foi colocado em uma prateleira retrátil que não deixava espaço para apoio dos braços. O interessante era observar o perfil das atendentes. Uma muito alta ficou com a perna espremida abaixo do teclado e curvada em relação ao tampo da mesa, enquanto a outra, muito baixa, ajustou a altura da cadeira para ficar em uma posição melhor, mas ficou com os pés longe do chão em função disso.


Fiquei pensando na dor que ambas deveriam ficar no fim do expediente. Pelo menos elas não perderam o bom humor e mantiveram a postura gentil e atenciosa com todos os que passaram por elas.



A POSIÇÃO DO MOBILIÁRIO


Com o dia ensolarado e um belo jardim que chegava a ser visto no mezanino, onde estava localizada a clínica, a vista da janela era um presente! Mas em função do posicionamento das cadeiras, ninguém podia se dar ao luxo de apreciar.


São pequenos detalhes de projeto que não aumentam o custo da obra, mas fazem toda a diferença para o usuário. Em uma sala com uma iluminação fria, uma pequena televisão sem som, um piso gelado e ainda sendo obrigado a encarar a parede branca o tempo todo, o tédio foi tomando conta de mim.


Minha mãe foi para a cirurgia e eu permaneci nessa sala sem ter muito o que fazer. Observando o movimento ao meu redor percebi a maioria das pessoas presas em seus celulares e outros encarando a danada da parede. Me dei conta que em uma área de espera para uma cirurgia de catarata, nenhum paciente ali conseguia enxergar a minúscula televisão ao longe e não havia nenhuma outra distração para aliviar o nervosismo estampado em seus rostos em função da espera.


Mudanças como um piso mais acolhedor, uma iluminação aconchegante, uma televisão proporcional e a mudança do posicionamento das cadeiras, faria toda a diferença na experiência do usuário.


O BANHEIRO


Na falta do que fazer e me remoendo no tédio, resolvi procurar pelo banheiro, parada obrigatória em minhas análises em qualquer lugar que vou. Logo senti falta do básico. A sinalização. Tive então que perguntar à atendente.


Qual foi a minha surpresa ao ver sinalizado o enorme degrau da entrada. Detalhe, não havia banheiro PCD.


O ambiente interno não tinha barras de apoio e a torneira era de giro com o manipulador quadrado sem ergonomia nenhuma.



Às vezes me questiono se eu fico falando do óbvio e do básico sobre ergonomia, mas ao me deparar com essas situações vejo que não falamos o suficiente.


O lado bom é que havia uma caixa de som dentro do banheiro e ouvi exatamente o momento que me chamaram avisando que a cirurgia havia terminado.


OS FAMOSOS DESNÍVEIS


Chegando à outra área de espera, agora para aguardar minha mãe, me deparei com uma solução interessante para o desnível existente da entrada. Uma soleira rampada em aço corrugado (como nos pisos de ônibus), seguido de uma sinalização de alerta.


Muito fácil de enxergar, eu e mais algumas pessoas idosas entramos sem maiores problemas.


No corredor de espera havia mais uma rampa muito suave que só era percebida em função dos adesivos antiderrapantes no piso, mas que foram muito bem colocados já prevendo qualquer desconforto com a mudança de inclinação do piso.


Também me chamou a atenção o rodapé de inox que aguenta bem qualquer batida mais forte na parede, seja por uma cadeira de rodas, bengala ou andador.


O corredor era relativamente estreito, com apenas duas cadeiras que logo ficaram cheias com a presença dos acompanhantes que chegavam para buscar seus entes queridos. Muitos de nós ficamos novamente em pé aguardando a saída do paciente ou a conversa com o médico que acontecia ali mesmo, entre todos.


A parede atrás das cadeiras sofreu um pouco e um revestimento mais resistente como aço, madeira ou laminado melamínico (Fórmica) nessa faixa teriam resolvido facilmente esse problema.



E foi enquanto esperava minha mãe sair que me surpreendi com a soleira rampada que à princípio eu tinha adorado! Os pacientes saindo da cirurgia foram orientados a não abaixar a cabeça e estavam sonolentos com o efeito da anestesia ainda presentes no organismo e mesmo assim saíam caminhando do local.


Presenciei duas situações. Uma em que o paciente não viu o desnível, se desequilibrou e teve que parar para se recuperar e outra em que observado o desnível ele tentou evitá-lo não pisando na rampa. Nesse caso a soleira se mostrou larga e mais uma vez o desequilíbrio se fez presente.




Vejam no vídeo que mesmo os que passaram sem maior dificuldade, como minha mãe, o minúsculo desnível ainda foi tratado por ela com cuidado, bem devagar e com apoio da enfermeira.


Todos devidamente amparados e acompanhados não sofreram nenhuma queda, mas fiquei pensando qual a solução mais adequada nesse caso. Talvez o prolongamento da rampa interna já existente e suave fizesse com que chegássemos em nível até a porta, mas isso tiraria a área de espera já pequena. Uma rampa mais longa na saída e mais suave ao invés da soleira também poderia ajudar, mas ia atrapalhar a circulação do hall dos elevadores.


Fato é que a equipe estava ciente desse risco e não deixou ninguém passar por ele sem avisar e auxiliar na transição. Nota dez para eles.


E assim voltamos lentamente para o carro, subindo a rua inclinada bem devagar à ponto de um pedestre nos perguntar se precisávamos de ajuda. Também idosa, a senhora reclamou da falta de acessibilidade nas calçadas falando como detestava passar por aquela rua quando necessário.


Então chego à duas conclusões com essa experiência. Os detalhes de projeto fazem toda a diferença na experiência do usuário e preciso falar mais sobre as coisas óbvias!



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1 Comment


Unknown member
Oct 06, 2022

Muito bom. Há anos estou nessa pauta de pessoas com deficiência como conselheiro da Escola de Gente. Parece que nada muda ou quando muda são paliativas.

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