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  • flavia ranieri

A chuva e a manga - a memória e os sentidos

Atualizado: 4 de mai.


Originalmente publicado em gero.pro

Primeiro de janeiro de dois mil e vinte e dois. Sentada na varanda da casa de minha mãe lendo um livro enquanto meu cachorro roncava ao meu lado, tive que parar a leitura quando a chuva apertou. Não porque eu estava me molhando, mas porque me dei conta que o barulho da chuva em Belo Horizonte era diferente do som da chuva em São Paulo. Olhei ao redor e fiquei tentando imaginar o porquê. Seria a forma topografia da cidade, os revestimentos da calçada, a arquitetura e o urbanismo?

Minha mente foi levada imediatamente às memórias de minha infância quando no período de férias de fim de ano, eu acompanhava minha mãe à escola como forma de evitar o tédio em casa. Minha mãe era pedagoga e enquanto nós alunos estávamos em recesso, havia um período ainda em dezembro onde os professores organizavam os planos de aula do ano seguinte e outras tarefas que eu não tenho ideia de quais eram. Alguns amigos também eram filhos de professores da escola e com isso a possibilidade de brincar livremente em uma área enorme com eles me era muito mais atrativa que ficar em casa. A escola possuía duas enormes mangueiras no pátio central. Árvores centenárias com raízes enormes que eram rodeadas por grandes bancos circulares ao redor delas como uma proteção à história contida naqueles grandes troncos. Dezembro para mim sempre foi sinônimo de chuvas fortes e constantes que jogavam no pátio as mangas maduras e vermelhas das mangueiras. Sempre íamos ao colégio com sacolas nos bolsos, para voltarmos com elas cheias das frutas que se espalhavam pelo chão. Mas como criança, o maior prazer não estava em recolhê-las e sim em comê-las. É interessante como funciona a memória. Me lembro bem que não nos sentávamos nos bancos para apreciar as mangas e sim nas muretas das jardineiras. Para quem já comeu manga com as mãos irá entender os motivos. Comer uma manga dessa forma nos obriga exercitar o desapego. Com as roupas, com as mãos, com o rosto, com o chão. Uma mordida na ponta é o suficien

te para descascar com os próprios dentes a casca e imediatamente ser inundado pelo cheiro da fruta fresca e pronta para ser degustada. E isso não é tarefa fácil, mas extremamente prazerosa. O suco escorrendo entre os dedos e os lábios se unem com o gosto doce e macio da manga. Pingando pelas mãos e chegando ao piso, me sentar na mureta baixa, ou mesmo no meio fio, significava uma proximidade maior entre a bagunça e o chão. Não sei por que, mas me parecia mais fácil dessa forma na época. Uma vez terminado o banquete era hora de analisar o estrago, correr ao vestiário de forma a não piorar a situação e me lavar do melhor jeito possível.

Brincando com meus amigos em uma das salas de aula, onde tomávamos os lugares dos professores e podíamos nos vingar ou homenageá-los em nossas imaginações, o barulho da chuva forte no pátio do colégio era o prenúncio de que a diversão estava apenas começando. Essa era a hora mágica em que as mangas caíam das frondosas copas. O som oco da queda das frutas no chão eram o nosso chamariz para correr para fora.

Não me lembro de nenhuma vez minha mãe ter chamado minha atenção por estar molhada da chuva ou imunda das mangas, mas me lembro de voltar orgulhosa para casa com a sacola cheia de frutas para distribuir para a família que iria comê-las de forma civilizada à mesa. O livro que eu estava lendo antes de parar para divagar sobre isso era “Os olhos da pele – a arquitetura e os sentidos” de Juhani Pallasmaa e ao voltar meus olhos para ele me deparei com o autor discorrendo sobre a “intimidade acústica” onde afirmava que CADA CIDADE TEM SEU ECO. Eu tinha acabado de vivenciar exatamente isso e terminei a leitura com duas certezas. O som da chuva forte de Belo Horizonte é diferente da de São Paulo e a manga comida com as mãos sentada no meio fio é mais gostosa que a da servida à mesa. FELIZ 2022!

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